Culpa: quando assumir responsabilidade por tudo começa a fazer mal
Sentir culpa pode ser importante.
A culpa pode nos levar a reconhecer um erro, reparar uma atitude e considerar o impacto que nossas ações tiveram sobre outras pessoas.
O problema aparece quando a culpa deixa de estar relacionada a uma responsabilidade real e passa a acompanhar quase todas as decisões.
Você descansa e se sente culpada.
Diz não e se sente culpada.
Escolhe algo para si e se sente culpada.
Coloca um limite e começa a questionar se foi egoísta.
Nesse caso, talvez seja importante investigar o que está por trás dessa culpa.
Culpa não significa necessariamente que você fez algo errado
Esse é um ponto fundamental.
Uma emoção é uma experiência interna. Ela não funciona como um veredito sobre a realidade.
Sentir culpa não prova que você é culpada.
Da mesma forma, sentir ansiedade não prova que existe perigo.
A pergunta pode ser:
“Existe realmente algo pelo qual eu sou responsável ou estou interpretando a situação dessa maneira?”
A responsabilidade pode ficar grande demais
Algumas pessoas desenvolvem uma tendência a assumir responsabilidade excessiva pelas emoções e pelo bem-estar dos outros.
Se alguém está triste:
“Será que fiz alguma coisa?”
Se alguém está decepcionado:
“Eu deveria ter feito diferente.”
Se alguém está irritado:
“Preciso resolver isso.”
Aos poucos, cria-se uma regra interna:
“Se alguém está mal, eu preciso fazer alguma coisa para corrigir.”
Essa regra pode tornar os relacionamentos extremamente desgastantes.
Culpa e limites
A culpa costuma aparecer com força quando começamos a mudar um padrão.
Imagine alguém que sempre esteve disponível para familiares, amigos ou parceiros.
Em determinado momento, começa a dizer:
“Hoje não consigo.”
É possível que imediatamente apareça:
“Estou sendo egoísta.”
Mas talvez exista uma diferença entre egoísmo e autocuidado.
Egoísmo envolve desconsiderar sistematicamente as necessidades dos outros.
Autocuidado envolve reconhecer que as próprias necessidades também existem.
Por isso, uma pergunta mais útil do que “estou sendo egoísta?” pode ser:
“Estou deixando de considerar o outro ou estou apenas considerando também a mim?”
A culpa pode manter padrões
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, podemos observar como pensamentos e comportamentos se relacionam.
Por exemplo:
Situação: você precisa cancelar um compromisso.
Pensamento: “A pessoa ficará decepcionada e isso significa que fui irresponsável.”
Emoção: culpa.
Comportamento: mantém o compromisso mesmo estando exausta.
Resultado: alívio momentâneo da culpa.
Esse alívio pode reforçar o comportamento.
Na próxima situação, novamente será mais difícil dizer não.
Uma pergunta importante
Quando sentir culpa, experimente diferenciar três coisas:
Responsabilidade: o que realmente depende de mim?
Influência: o que minhas ações podem afetar, mas não controlar?
Responsabilidade do outro: aquilo que pertence à outra pessoa.
Essa diferenciação pode ajudar a diminuir a tendência de carregar responsabilidades que não são suas.
Você não precisa eliminar a culpa para mudar
Um erro comum é esperar:
“Quando eu parar de me sentir culpada, vou conseguir me posicionar.”
Muitas vezes, o processo acontece ao contrário.
Você aprende a agir de acordo com seus valores mesmo sentindo algum desconforto.
Com novas experiências, suas interpretações podem mudar.
Você percebe que dizer "não" não destruiu necessariamente a relação.
Que alguém pode ficar frustrado e continuar gostando de você.
Que descansar não significa ser irresponsável.
E que cuidar de si não precisa significar abandonar os outros.
A culpa pode aparecer durante esse processo.
Mas ela não precisa decidir tudo por você.
Se a culpa interfere constantemente nas suas escolhas, relações ou autoestima, a psicoterapia pode ajudar a compreender de onde esse padrão vem e como ele continua sendo mantido no presente.
Sabrina Ramos Maurer
Psicóloga | Terapia Cognitivo-Comportamental
CRP 07/38112





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