Quando dar conta de tudo começa a pesar
Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade em delegar, pedir ajuda ou simplesmente deixar que outra pessoa faça as coisas do seu jeito?
À primeira vista, pode parecer apenas uma característica positiva.
São pessoas responsáveis, comprometidas, organizadas, cuidadosas. Percebem o que precisa ser feito e fazem. Antecipam problemas, resolvem situações, ajudam os outros e dificilmente deixam alguma coisa para depois.
O problema começa quando essa capacidade de dar conta de tudo deixa de ser apenas uma característica e passa a funcionar como uma obrigação.
Quando surge a sensação de que é preciso estar no controle, assumir a responsabilidade e garantir que tudo aconteça da maneira certa.
E, nesse ponto, aquilo que parecia competência pode começar a pesar.
Ser responsável não significa ser responsável por tudo
Existe uma diferença importante entre responsabilidade e hiper-responsabilidade.
Ser responsável envolve reconhecer aquilo que está sob nossa responsabilidade e agir de acordo com isso.
A hiper-responsabilidade vai além.
A pessoa começa a assumir como sua a responsabilidade pelo resultado de situações que não dependem exclusivamente dela. Pode sentir que precisa evitar erros, antecipar problemas, cuidar das necessidades dos outros e garantir que tudo funcione.
É como se existisse uma regra silenciosa:
"Se eu consigo fazer, então eu devo fazer."
E, pouco a pouco, essa regra pode transformar capacidade em obrigação.
"Se eu não fizer, não vai acontecer"
Essa crença aparece com frequência nesse tipo de funcionamento.
A pessoa tem dificuldade em delegar porque acredita que o outro não fará tão bem quanto ela.
Ou já teve experiências em que precisou assumir responsabilidades porque outras pessoas realmente não cumpriram o que deveriam.
Com o tempo, pode aprender:
"É mais fácil fazer eu mesma."
E, em alguns contextos, isso realmente pode ser verdade.
Mas existe uma diferença entre fazer porque é necessário e assumir tudo porque você não consegue confiar que alguém fará diferente de você.
Nem sempre o outro precisa fazer exatamente como você faria.
Às vezes, precisa apenas fazer o suficiente.
Essa diferença parece pequena, mas pode representar uma mudança importante na relação com o controle.
O perfeccionismo também pode estar presente
O perfeccionismo nem sempre aparece como a busca evidente por excelência.
Às vezes, ele aparece na dificuldade de aceitar que algo seja feito de uma maneira diferente daquela que você considera correta.
Pode existir uma preocupação excessiva com erros, críticas, consequências ou com a possibilidade de decepcionar alguém.
Então, para evitar esses desconfortos, a pessoa confere novamente, refaz, corrige, antecipa e assume.
O resultado pode ser paradoxal:
quanto mais competente ela se torna, mais coisas passam a depender dela.
E quanto mais coisas dependem dela, mais difícil fica parar.
Quando ser indispensável começa a parecer necessário
Existe ainda uma questão mais profunda.
Algumas pessoas não estão apenas tentando fazer tudo bem.
Elas aprenderam, ao longo da vida, que ter valor está relacionado a ser necessárias.
Ser aquela pessoa que resolve.
Que sabe.
Que ajuda.
Que sustenta.
Que não decepciona.
Que está disponível.
Que consegue mesmo quando está cansada.
Nesse funcionamento, dizer "não sei", "não consigo", "preciso de ajuda" ou "isso não é responsabilidade minha" pode provocar desconforto.
Porque abrir mão de uma responsabilidade pode ser percebido, internamente, como abrir mão de uma parte da própria identidade.
E talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade em descansar.
Não porque não estejam cansadas.
Mas porque aprenderam a associar descanso à falta de produtividade, responsabilidade ou merecimento.
O custo de estar sempre no controle
Manter tudo sob controle exige energia.
É preciso pensar à frente, prever problemas, monitorar resultados, conferir o trabalho dos outros, organizar tarefas, lembrar compromissos e permanecer disponível.
Individualmente, nenhuma dessas atitudes necessariamente representa um problema.
A questão está na repetição e na rigidez desse padrão.
Quando a pessoa sente que precisa estar sempre atenta, sempre disponível e sempre preparada para resolver alguma coisa, o organismo permanece submetido a uma demanda constante.
E isso pode contribuir para sobrecarga, dificuldade de descanso, irritabilidade, sensação de estar sempre atrasada e dificuldade de desconectar das responsabilidades.
Em determinadas circunstâncias, padrões persistentes de sobrecarga também podem contribuir para processos de esgotamento. O burnout, porém, é um fenômeno multifatorial e não pode ser explicado por uma única característica individual, como o perfeccionismo ou a necessidade de controle.
Talvez você não precise fazer menos. Precise carregar menos.
A solução não necessariamente está em deixar de ser responsável, cuidadoso ou comprometido.
Essas características podem ser importantes e positivas.
Talvez a mudança esteja em começar a diferenciar:
O que é minha responsabilidade?
O que é responsabilidade do outro?
O que realmente precisa ser feito por mim?
O que pode ser delegado?
O que precisa estar perfeito e o que apenas precisa estar bom o suficiente?
O que acontece quando alguém faz diferente de mim?
E o que eu acredito que isso diz sobre mim?
Essas perguntas podem ajudar a perceber que, muitas vezes, o problema não está na quantidade de coisas que uma pessoa consegue fazer.
Está na dificuldade de não assumir aquilo que ela não precisa carregar.
Dar conta de tudo pode ter sido, em algum momento, uma forma de se proteger, conquistar reconhecimento, evitar conflitos ou garantir que as coisas funcionassem.
Mas um comportamento que foi útil em determinada fase da vida pode deixar de ser funcional quando as circunstâncias mudam.
Talvez amadurecer também envolva perceber que ser capaz de fazer não significa que você precise fazer tudo.
E que dividir responsabilidades, pedir ajuda, delegar e permitir que outras pessoas façam as coisas à sua maneira não diminuem a sua competência.
Às vezes, fazem parte dela.
Porque existe uma diferença entre ser alguém em quem os outros podem confiar e acreditar que tudo depende de você.
E talvez seja justamente nessa diferença que comece uma vida um pouco menos pesada.
Sabrina Ramos Maurer
Psicóloga | Terapia Cognitivo-Comportamental
CRP 07/38112





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