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O mito da loucura na terapia

  • Foto do escritor: Sabrina Ramos Maurer
    Sabrina Ramos Maurer
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

Em um dia "normal"...

Ela acordou, tomou café, levou os filhos para a escola, foi ao trabalho. No meio de uma reunião, o peito apertou. A falta de ar veio sem aviso. As lágrimas começaram a escorrer enquanto o gerente apresentava os números do trimestre. "Desculpa, não estou bem", sussurrou, saindo da sala. Ninguém perguntou por quê.

Ele perdeu a mãe de repente. Um infarto. O telefone tocou às 7h da manhã de um sábado que deveria ser comum. Desde então, o mundo se dividiu em antes e depois. Mas o luto não veio com manual de instruções, e o RH só deu três dias de licença.

Ele recebeu um diagnóstico que mudou tudo. Doença autoimune. "Cuidado com o estresse", disse o médico. Mas como evitar estresse quando o chefe grita, as contas chegam e o plano de saúde nega o tratamento? Ele riu da sugestão de terapia. "Não sou louco", pensou.

Ela viu o casamento acabar depois de 15 anos. O silêncio na mesa do jantar já durava anos, mas o divórcio ainda doeu como se tivesse sido de um dia para o outro. As amigas disseram "supera". A família disse "você é forte". Ninguém disse "como você está se sentindo, de verdade?"

Ele conseguiu tudo o que queria: o cargo dos sonhos, o apartamento na cobertura, o carro importado. E ainda assim se sente vazio. Às 3h da manhã, acorda com a estranha sensação de que a vida deveria ser mais do que acumular conquistas que não pesam nada dentro do peito.

A verdade é que algumas pessoas não conseguem simplesmente "seguir".

Não por fraqueza. Não por falta de fé ou de força de vontade. Mas porque a dor, quando não elaborada, não desaparece — ela se instala. Vira insônia, vira irritação, vira aquele nó na garganta que aparece sem aviso. Vira falta de ar no meio do supermercado. Vira o silêncio pesado de quem já nem lembra como era rir de verdade.

E não há manual,

ou frase motivacional no Instagram que resolva isso.

Porque "seguir em frente" sem atravessar o que te paralisou não é superação. É fuga disfarçada de produtividade.

O que é, então, um verdadeiro equívoco?

É sofrer sozinha.

É acreditar que a dor só é válida se for visível, se for aprovada por alguém, se couber em três dias de atestado.

É pensar que pedir ajuda é fraqueza, quando o verdadeiro ato de coragem é encarar o próprio caos de frente — de preferência, com um profissional que estudou para te ajudar a reorganizar os pensamentos e atravessar esse momento.

Terapia não é para quem "perdeu o juízo". Terapia é para quem percebeu que guardar tudo dentro não tem funcionado. É para quem entende que o peito que aperta, a noite que não dorme, a raiva que não tem nome — tudo isso merece um espaço de fala, escuta e acolhimento, além de estratégias baseadas em evidências para transformar essa relação com o sofrimento.

Buscar ajuda profissional não é um sinal de descontrole. É, na verdade, uma escolha lúcida.

É olhar para si mesmo e dizer: "Eu mereço mais do que apenas sobreviver. Eu mereço entender o que se passa comigo e aprender a lidar com isso de forma ativa."

O maior risco não é sentar-se em uma sessão de terapia. É continuar normalizando o sofrimento silencioso enquanto a vida vai perdendo o sentido aos poucos. É esperar o colapso para só então considerar que talvez — só talvez — precisasse ter falado antes.

Você não precisa estar "em pedaços" para merecer cuidado. Você precisa apenas ser humano. E reconhecer que cuidar da mente, com base na ciência e no autoconhecimento, não é sinal de fraqueza — mas o primeiro ato de inteligência emocional.

O verdadeiro problema não é buscar ajuda. É normalizar a dor até que ela grite mais alto que você.


 
 
 

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© 2026 por Sabrina Ramos Maurer, esp.

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