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Por que correr tanto de algo que só podemos encontrar parando?

  • Foto do escritor: Sabrina Ramos Maurer
    Sabrina Ramos Maurer
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

O Engano Elegante

Todo excesso é sintoma de uma falta não curada.

Esta é uma verdade que raramente nos contam — e que quase nunca queremos ouvir. Os excessos são disfarces sofisticados, máscaras tão bem feitas que até quem as usa acredita que são parte do rosto.

Quase nunca aparecem como problema. Surgem como conquista, força, entusiasmo, disciplina. Recebem aplausos, admiração, inveja velada. Mas, no fundo, são apenas gritos disfarçados de virtude. Gritos de alguém que, em algum momento da vida, aprendeu que ser demais era a única forma de ser o suficiente.

Os Disfarces que Conhecemos Bem

O excesso de trabalho costuma esconder o medo do vazio. Aquele que não para nunca, que responde e-mails à meia-noite, que transforma produtividade em religião — ele não está buscando sucesso. Está fugindo do silêncio que existe entre uma tarefa e outra. Do espaço onde a pergunta "e agora?" ecoa sem resposta.

O excesso de controle revela o pavor de perder o domínio sobre o que não se pode prever. A pessoa que precisa organizar tudo, que sofre quando os planos mudam, que controla até as emoções dos outros — ela carrega uma criança ferida que, em algum momento, descobriu que o mundo é imprevisível e cruel demais para confiar.

O excesso de consumo mascara o desejo de ser visto. Aquela compulsão por roupas, carros, experiências, likes — não é sobre ter. É sobre existir. É a tentativa de comprar uma identidade quando a própria parece insuficiente.

O excesso de fala esconde a incapacidade de ser escutado naquilo que realmente importa. Quem fala demais, muitas vezes, está tentando preencher um espaço que deveria ser ocupado por presença, não por palavras. Está gritando "estou aqui" para quem nunca olhou de verdade.

O excesso de produtividade? É o desespero de não se sentir suficiente. A agenda lotada, as metas ambiciosas, a necessidade de sempre fazer mais — tudo isso é uma tentativa de provar valor para alguém que, lá no fundo, ainda duvida se merece ocupar espaço no mundo.

A Armadilha da Identidade

A maioria das pessoas não percebe. Elas defendem o próprio excesso como se fosse identidade.

"Eu sou assim, trabalho demais." "Sou perfeccionista, não consigo parar." "Gosto de estar no controle, é minha personalidade."

Mas ele é apenas um muro. Um desvio. Uma tentativa de afastar a dor que nasce daquilo que faltou: amor, reconhecimento, segurança, pertencimento, sentido.

Por trás da compulsão existe uma ausência não resolvida. E é curioso — e trágico — como o ser humano se acostuma a preencher vazios com o que tem à mão, sem perceber que quanto mais acumula, mais sente falta.

O Paradoxo do Preenchimento

Fato é: os excessos não revelam força. Revelam medo.

Medo de parar. Medo de sentir. Medo de encarar o silêncio onde a verdade habita. Medo de descobrir que, sem todas essas camadas de "fazer", talvez não saibamos mais quem somos.

A crise existencial que emerge quando paramos — aquela sensação de vazio, de falta de propósito, de questionamento profundo — não é um problema a ser evitado. É um convite.

 É o coração pedindo atenção depois de tanto tempo sendo ignorado.

A Pergunta que Muda Tudo

E talvez o ponto de virada da vida aconteça quando deixamos de tentar tapar o buraco e começamos a nos perguntar:

Qual vazio ainda estou tentando preencher?

Esta pergunta não tem resposta fácil. E não deve ter. Ela exige coragem — a coragem de olhar para trás, para dentro, para os lugares que construímos muros para não ver.

O excesso de trabalho pode estar tentando preencher a falta de reconhecimento na infância. O excesso de controle, a falta de segurança emocional. O excesso de consumo, a falta de pertencimento. O excesso de fala, a falta de conexão verdadeira. O excesso de produtividade, a falta de amor incondicional.

O Caminho da Curiosidade, Não da Condenação

Não estou aqui para dizer que você deve parar de trabalhar, consumir, falar ou produzir. O convite é diferente: é para que você se torne curioso sobre seus próprios padrões.

Quando você sente aquela urgência de fazer mais, comprar mais, controlar mais, falar mais — pause. Respire. E pergunte: o que estou tentando não sentir agora?

A cura não vem do excesso. Ela vem da coragem de ficar com o vazio até que ele revele o que realmente precisa ser preenchido. E muitas vezes, o que precisa ser preenchido não é algo que podemos fazer, ter ou controlar.

É algo que precisamos permitir: presença, conexão, vulnerabilidade, aceitação.

O Silêncio como Aliado

No fim das contas, os excessos são estratégias brilhantes — e cansativas — para não ouvir o silêncio. Mas é justamente no silêncio onde a verdade habita. É lá que encontramos as respostas que estivemos buscando em todos os lugares errados.

A próxima vez que você se pegar correndo, acumulando, controlando, falando — experimente parar. Não para sempre. Apenas por um momento. E escute.

Talvez, no espaço que você tanto teme, você finalmente encontre o que realmente procura.

E você? Qual vazio ainda está tentando preencher?


 
 
 

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© 2026 por Sabrina Ramos Maurer, esp.

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